Crítica | O Castelo de Vidro

Relações entre pais e filhos já são normalmente tumultuadas, mas podem se tornar ainda mais complexas em situações extremas. O Castelo de Vidro, longa baseado na história real de Jeannette Walls (aqui vivida por Brie LarsonElla Anderson e Chandler Head, em diferentes fases de sua vida), nos guia através da história desta, que teve uma infância e adolescência curiosas, para dizer o mínimo; juntamente com seus outros três irmãos, filhos de um casal sem-teto – Rex (Harrelson) e Rose Mary (Watts) -, a família dependia de invadir imóveis abandonados para sobreviver.

O filme se utiliza de um formato episódico e faz uso de flashbacks entre o presente – onde Jeannette está prestes a se casar com seu namorado, David (Greenfield) – e várias fases de sua infância e adolescência, o que, apesar de acabar se tornando um pouco cansativo, funciona principalmente para estabelecer o contraste, narrativa e esteticamente, entre sua vida atual e seu passado.

Visualmente, a mise en scéne criada por Cretton trabalha juntamente com o design de produção assinado por Sharon Seymour: é impossível não notar, por exemplo, como a estética da casa atual de Jeannette chega a ser diametralmente oposta àquela dos lares onde passou sua infância, com uma paleta de cores que beira o monocromático; e até mesmo os enquadramentos buscam uma simetria sisuda com quadros fixos a fim de retratar o mundo atualmente habitado por ela, destoando da bagunça visual e por muitas vezes a câmera na mão utilizadas nas sequências que mostram seu passado. Assim, em um determinado momento, salta aos olhos a figura de seu pai, Rex, tão rústico, sentado sobre uma poltrona em especial de sua sala que acaba por representar o extremo oposto de tudo aquilo que o homem é e acredita.

Mas mesmo havendo um grande contraste, a obra faz questão de nos lembrar por diversas vezes que apesar de ter, sim, se transformado, a Jeannette adulta ainda preserva sua essência: em vários momentos a montagem e a direção optam pelo uso de pequenos raccords, a exemplo daquele que liga uma cena de seu passado com uma no presente em que a jornalista se encontra exatamente na mesma posição dentro de um carro.

O roteiro se mostra eficaz em estabelecer personagens tridimensionais e multifacetados já que Rex, por exemplo, apesar de por muitas vezes um pai relapso e inconsequente – para não entrar no óbvio mérito do alcoolismo -, inegavelmente nutria afeto e amor por sua família, a ponto de usar muito mais do que sua criatividade na tentativa de contornar a falta de condições financeiras, a exemplo do próprio castelo de vidro que dá nome ao filme: algo que sabia muito bem que jamais poderia realizar, mas cujos planos de construção faziam com que tivesse momentos memoráveis ao lado da filha.

Neste sentido, a narrativa jamais se preocupa em assumir uma postura de julgamento: se por um lado em muitas situações os irmãos Walls chegaram a passar fome – e a perceber que jamais sairiam dali se não por conta própria -, é fato que o patriarca também, ao menos pontualmente, se importava com o futuro de Jeannette e seus irmãos, mesmo que de sua forma imperfeita e errática. Assim como normalmente são os seres humanos, Rex e Rose Mary tinham seus altos e baixos em relação às suas atitudes.

Atitudes estas que foram perdoadas por Jeannette, especialmente diante da dor causada pela iminência da perda: esta costuma justamente fazer com que deixemos de lado as feridas do passado.

(Há uma série de pequenos vídeos do acervo da família Walls real ao fim dos créditos.)

Ficha técnica:

The Glass Castle / 2017 / Estados Unidos / 127min

Direção: Destin Daniel Cretton
Roteiro: Destin Daniel Cretton, Andrew Lanham (baseado no romance de Jeannette Walls)
Elenco: Brie Larson, Woody Harrelson, Naomi Watts, Ella Anderson, Chandler Head, Max Greenfield, Josh Caras, Charlie Shotwell, Iain Armitage, Sarah Snook
Design de produção: Sharon Seymour
Fotografia: Brett Pawlak
Montagem: Nat Sanders
Trilha sonora: Joel P. West
Distribuidora: Paris Filmes

Trailer / Ver no IMDb

Crítica de Cinema desde 2017, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, fotógrafa e integrante do Coletivo Elviras de Críticas de Cinema.

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