Crítica | Corpo e Alma

Não consigo me recordar qual foi o teórico cinematográfico que determinou a máxima de que, quando se trata da sétima arte, mostrar algo é sempre mais eficiente do que dizê-lo; o excesso de exposição de informações e o hábito de alguns cineastas de duvidar da capacidade de seu espectador em capturar nuances e sutilezas costumam ser as razões de uma grande parte de problemas narrativos comuns a muitas produções. Corpo e Alma, representante húngaro no Oscar 2018 e que foi laureado com o Urso de Ouro do Festival de Berlim deste ano de 2017, é, neste sentido, tecnicamente impecável. Entretanto, como nem tudo são flores, chega a ser espantoso como Ildikó Enyedi, diretora e roteirista por trás da obra, não apenas parece querer reforçar uma série de estereótipos de gênero como também demonstra extrema insensibilidade ao tratar de forma leviana e irresponsável alguns temas delicados (que só abordarei nos últimos três parágrafos, para evitar spoilers).

A narrativa gira em torno do casal formado pela jovem Mária (Borbely) e Endré (Morcsáyni), quando a primeira arranja um emprego como fiscal de qualidade no mesmo abatedouro onde este já trabalhava; os dois, então, criam uma estranha e forte conexão quando começam a, ainda sem se conhecer profundamente, se encontrarem durante a noite dentro de seus próprios sonhos, em forma de cervos, sempre em torno de um mesmo lago dentro de um bosque.

Neste sentido, o longa obviamente utiliza-se deste fato como forma de militância em prol dos animais de forma, inclusive, extremamente gráfica e perturbadora exibindo, em detalhes, o processo de abate e corte da carne de uma vaca – e isto momentos depois de mostrar, de certa forma, seus protagonistas na pele de animais. Como se não bastasse, é justamente depois de uma destas cenas que podemos ouvir um dos personagens falando que “usa sal para deixar a carne macia”, como forma de contrastar a dolorida morte do animal com a maneira banal que tratamos desta. A temática animal parece estar se tornando cada vez mais comum em obras cinematográficas, aliás, especialmente se considerarmos ser o foco central de uma das melhores produções do ano, Okja.

Mas Corpo e Alma é um filme dúbio. Se por um lado deixa claro que seu casal de protagonistas, Mária e Endre, são pessoas extremamente introvertidas e com dificuldade de estabelecerem conexões humanas comuns, deixa, também, uma série de lacunas em branco já que em momento algum somos capazes de entender completamente os motivos exatos pelos quais ambos tiveram tal ligação – o que não necessariamente é um problema, já que o amor é um sentimento inexplicável em sua essência e, se já não costumamos compreender exatamente seu surgimento em condições reais e realistas, uma relação nascida através de sonhos seria, hipoteticamente, ainda mais incompreensível. Não, o amor não se explica, não se racionaliza; o amor só se sente.

Outra destas lacunas é o comportamento de Mária que, em várias situações, sugere que a moça seja portadora de síndrome de Asperger ou algum outro grau do espectro autista: isto fica especialmente claro tanto pela sua forma de se relacionar com às pessoas à sua volta, se isolando e recluindo, como por momentos pontuais em que demonstra ter uma memória absurda, ao se lembrar de datas com precisão extrema, ou um foco de percepção quase que sobre-humano, ao ser capaz notar camadas de gordura de pouquíssimos milímetros sobre as peças de carne.

Introspectivo em sua essência, assim como sua própria protagonista, a obra tem como um de seus grandes méritos conseguir estabelecer em pequenas nuances e sutilezas uma Mária tridimensional e complexa: situações como aquela em que a jovem recolhe seu pé do sol em direção à sombra deixam clara a sua timidez, enquanto algumas outras como o momento em que assiste filmes pornôs enquanto come doces de gelatina em formato de ursinhos, caminha pelo parque observando de forma quase que científica os casais que se tocam de maneira lasciva e insinuante ou toca a si mesma na presença de um urso de pelúcia exploram sua inocência quase pueril diante do mundo, do sexo e das próprias relações humanas, sem que para isso, em momento algum, o roteiro precise apelar para diálogos expositivos: apenas o extremamente necessário é vocalizado, o que contribui ainda mais para seu clima meditativo e reflexivo.

Enquanto isso, Endre parece ser seu extremo oposto: o homem é até capaz do sexo, de casualidades, mas não de relações mais profundas: em dado momento chega a transar com uma desconhecida, deixando claro, minutos depois, que não pretende dividir sua cama com ela para mais nada além disso, nem mesmo dormir. Aqui, aliás, vemos o design de produção de Imóla Lang criar, de forma sutil e competente, um contraste necessário entre seus universos: a casa de Endre se encontra sempre escura e sombria, enquanto a de Mária é quase monocromática, sempre simétrica e extremamente sóbria, porém iluminada.

É uma pena que Enyedi resolva não fugir de estereótipos tão problemáticos ao reforçar a ideia da mulher ideal como uma donzela clara, inocente e doce, de uma forma quase infantil, enquanto seu interesse romântico é um homem mais velho, experiente e cujo sexo é algo muito além do natural; e, como se isto não fosse o bastante, o roteiro da húngara ainda faz questão de romantizar um relacionamento de extrema dependência emocional, a ponto de Mária decidir colocar um ponto final em sua própria vida após Endre não continuar com ela; e, não, não é só isso: ainda há um certo momento no qual a moça apenas desiste da morte após o homem lhe telefonar, resultando em uma sequência doentia e perturbadora na qual tenta estancar o sangue dos pulsos enquanto fala com ele que, novamente, lhe chama para sair, deixando claro ser, portanto, a única razão da tentativa de suicídio.

Outra tendência do ano de 2017 parece ter sido, inclusive, a de filmes e séries que tratam de patologias psiquiátricas como depressão ou ansiedade, além do próprio suicídio, de forma completamente irresponsável (e, sim, estou falando de Os 13 Porquês, da Netflix, além do péssimo Antes Que Eu Vá, onde, em minha crítica, também abordei a questão), já que a sequência mencionada no parágrafo anterior serve quase como um tutorial de uma das formas mais comuns de se abreviar a própria vida.

Sendo assim, o filme é um gatilho emocional absurdo para qualquer pessoa que já tenha passado por ideações suicidas e, embora não ache ser este o papel da crítica, definitivamente não o recomendo para qualquer um que sofra de uma depressão.

E, quando preciso abordar assuntos como este, gosto sempre de lembrar que, se está passando por isso, você não está sozinho: o telefone do CVV – Centro de Valorização da Vida é 141, e o site é https://www.cvv.org.br/.

Ficha técnica:

Teströl és lélekröl / 2017 / Hungria / 116min

Direção: Ildikó Enyedi
Roteiro: Ildikó Enyedi
Elenco: Géza Morcsáyni, Alexandra Borbély, Zoltán Schneider, Ervin Nagy, Tamás Jordán, Zsusza Járó, Réka Tenki, Júlia Nyakó, Itala Békés
Design de produção: Imola Láng
Fotografia: Máté Herbai
Montagem: Károly Szalai
Trilha sonora: Adam Balazs
Produção: Ernö Mesterházy, András Muhi, Mónika Mécs
Distribuidora: Imovision

Trailer / Ver no IMDb

Crítica de Cinema desde 2017, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, fotógrafa e integrante do Coletivo Elviras de Críticas de Cinema.

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