Crítica | Bye Bye Jaqueline

A oportunidade de conferir, na tela grande, uma obra realizada por profissionais da cidade onde moro, nasci e vivi a absoluta maior parte da minha vida é, sem dúvidas, algo sensacional; e, se o cinema brasileiro é riquíssimo, tendo nos presenteado com obras impecáveis neste ano (Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky, e Entre Irmãs, de Breno Silveira, precisam figurar nesta lista), fortalecer o audiovisual local é, além de algo extremamente prazeroso, necessário.

Sendo assim, foi com extrema alegria que aceitei o convite para a pré-estreia de Bye Bye Jaqueline onde, em meio a muitos rostos familiares da cena audiovisual paranaense e curitibana, além da crítica e jornalistas, boa parte do elenco e equipe técnica da produção estava disponível, com muita simpatia e receptividade, para conversar com todos os presentes e convidados.

Considerando todos os fatos, é uma pena que o filme de Anderson Simão simplesmente não consiga se sustentar, mostrando-se um obra absolutamente frágil e com uma série de problemas técnicos graves o suficiente para abalarem toda sua qualidade técnica.

O roteiro de Sari tem uma proposta bastante simples em sua essência: o interesse romântico entre a protagonista, Jaqueline (Poliana Oliveira), e o colega Fernando (Carlim). Ao mesmo tempo, também são exploradas a relação da garota com a melhor amiga, Amanda (Santana), com a mãe (Kürten) e o amigo Marchesi (Leonardo Oliveira), além do curioso professor Silvano vivido pelo próprio Wellington Sari.

E os problemas se iniciam justamente na parte narrativa, já que boa parte de seus diálogos soa extremamente forçada: com um misto de piadas que poderiam ter sido proferidas por aquele tio que insiste na brincadeira do pavê com algumas outras claramente inspiradas no humor nonsense britânico tão comum a séries e filmes como Monty Python e the IT Crowd – sendo que algumas destas últimas conseguem, sim, arrancar risos da plateia e são o ponto alto da fraca produção.

Além disso, a verdade é que nenhum de seus atores possui algum talento absurdo: Wellington Sariconsegue ser, de fato, engraçado (e chega a ficar óbvio que seu roteiro foi escrito de forma a propositalmente enfatizar sua veia cômica), protagonizando momentos de fato hilários, como aquele em que decide comer a prova de uma das alunas; Gabrielle Pizzato Santana também protagoniza várias situações engraçadas, mas… acaba por aí. O resto dos diálogos, mais intimistas ou pessoais, em praticamente nenhum momento chega a soar natural, como resultado de um roteiro fraco e atuações que chegam no máximo a medianas.

Como se não fosse o suficiente, uma série de decisões do diretor acaba por explorar o corpo dePoliana Oliveira e sexualizá-la de maneira incômoda e perturbadora, abusando não apenas de um figurino que destaca suas curvas como, em um momento específico, de cenas onde a garota se encontra de lingerie sem que haja qualquer necessidade narrativa para tal, além de planos e enquadramentos que parecem ter como único propósito enfatizar suas coxas ou nádegas. E, embora a atriz muito provavelmente seja maior de idade, não podemos esquecer o fato de que interpreta uma garota de apenas dezesseis anos.

Há ainda uma série de inconsistências narrativas: lembro-me como se fosse ontem do dia em que um dos professores de roteiro que tive comentou, em tom de brincadeira, que celulares haviam sido provavelmente a pior invenção do mundo para os roteiristas, já que o advento destes e a possibilidade de qualquer pessoa poder se comunicar com outra quase que instantaneamente cria uma série de barreiras e dificuldades na criação de uma narrativa. E, em Bye Bye Jaqueline, nenhum cuidado parece ter sido tomado neste sentido já que, já em seu primeiro ato, o filme falha ao criar um impasse envolvendo a protagonista e sua mãe quando a garota, por falta de créditos, pede o aparelho da mulher emprestado para responder uma SMS vinda de um número que desconhece – e aqui o roteiro parece ignorar completamente a existência de aplicativos de mensagem ou internet. Para completar, uma foto enviada por engano para a mãe da garota no ato final parece ter sido incluída no roteiro apenas como tentativa desesperada de tensão, já que alguma conclusão para tal acontecimento jamais ocorre, deixando o arco totalmente desconexo.

E, em meio a uma narrativa problemática, a direção de arte do longa ainda parece completamente perdida, incluindo camisetas e pôsteres de várias bandas de rock clássico que simplesmente não condizem com a idade e personalidade de absolutamente nenhum dos adolescentes ali retratados – decisão que acaba parecendo ter sido tomada pelo diretor de arte (cujo nome não consegui encontrar) tendo como base única e exclusivamente seu gosto musical pessoal. Além disso, a montagem criada por Christopher Faust não auxilia a narrativa já arrastada a se tornar mais fluida ou dinâmica, já que sua falta de ritmo acaba por tornar a já problemática projeção de uma hora e meia ainda mais exaustiva.

No fim das contas, é uma pena que Bye Bye Jaqueline não conte com a mesma qualidade de outros longas curitibanos.

Ficha técnica:

Bye Bye Jaqueline / 2017 / Brasil / 93min

Direção: Anderson Simao
Roteiro: Wellington Sari
Elenco: Poliana Oliveira, Gabrielle Pizzato Santana, Victor Carlim, Leonardo Oliveira, Flávia Cassias, Iza Kürten, Wellington Sari, Evandro Scorsin
Design de produção: Isbella Fonseca
Fotografia: Daniel Florencio
Montagem: Christopher Faust
Produção: Wellington Sari, Evandro Scorsin
Distribuição: Lança Filmes

Trailer / Ver no IMDb

Crítica de Cinema desde 2017, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, fotógrafa e integrante do Coletivo Elviras de Críticas de Cinema.

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