Crítica | 120 Batimentos por Minuto

120 Batimentos por Minuto é intragável. Um daqueles filmes que, após a subida dos créditos, causa uma sensação de angústia tão grande que se torna quase física. E, por incrível que pareça, esse é seu principal mérito: a Arte, por vezes, deve e precisa ser incômoda.

O longa de Robin Campillo é, também, um tapa na cara. Mas um tapa daqueles bem dados, em que se pega uma boa dose de impulso antes de se atingir o alvo desejado – o alvo, caso não tenha ficado claro, somos nós, o público.

A narrativa é fictícia, mas inspirada na filial francesa da Act Up, uma organização real que milita em prol de pessoas soropositivas, especialmente em países em que, devido a governos conservadores ou quaisquer outras razões, não há campanhas para a prevenção e tratamento de pacientes portadores do vírus HIV suficientes ou eficientes; lutando não apenas contra políticas falhas vindas do próprio estado mas também contra a cruel indústria farmacêutica que enxerga seres humanos doentes como potenciais fontes de lucro, a organização se utiliza de formas bastante peculiares e até mesmo chocantes para realizar seus protestos e intervenções – porém, que fique claro, sempre pacíficas e seguras.

Mas, muito além de contar a história destas pessoas, Campillo acerta em como faz isto: em um primeiro momento, o roteiro do francês opta por nos apresentar ao cotidiano da Act Up, mostrando como são orquestradas suas ações e um pouco do cotidiano e vivência daquelas pessoas, incluindo mas não se limitando a sua extrema organização política, já que existem inclusive regras para que qualquer debate possa ocorrer sem interrupções ou brigas; mas é logo em seguida que a narrativa faz com que, aos poucos, nos aproximemos das vidas íntimas de algumas daquelas pessoas de forma a humanizá-las ainda mais.

Humanizá-las, diga-se de passagem, a ponto de mostrar suas tribulações, dores e dificuldades, mas também ao nos fazer compartilhar de seus momentos de alegria, de riso e até, por que não, de pequenas situações em que chegam a brincar e fazer piada com sua própria condição; de nos fazer ver o nascimento e a perda de um amor, a dor de uma mãe, a luta diária contra a doença e os efeitos causados por ela e pelas drogas pesadas utilizadas para tentar controlá-la.

O que nos leva ao lado político de 120 Batimentos por Minuto porque, sim, o longa é essencialmente político já que a população soropositiva luta contra muito mais do que uma doença, mas contra um estigma, contra políticas ineficazes ou insuficientes, contra uma indústria farmacêutica doentia que não se importa em causar ou não evitar a morte se isso puder lhe trazer ainda mais lucro. Neste sentido, assistimos momentos como aqueles em que os membros da Act Up atiram sangue falso no rosto de figurões da máfia farmacêutica (para fazê-los sentir o medo, mesmo que por instantes), invadem escolas pura e simplesmente para levar aos adolescentes uma informação vital que pode lhes salvar a vida – algo que as próprias escolas e o governo falham em fazer – ou chegam a transformar a morte em ato político. Mas a luta da Act Up não é só por si: os frutos de sua batalha possivelmente serão colhidos pelas futuras gerações.

E é impossível analisar o longa sem mencionar a brilhante atuação de Nahuel Pérez Biscayart na pele de Sean, ao lado de Arnaud Valois que vive seu companheiro, Nathan: o primeiro, soropositivo, enfrenta os estágios finais da AIDS já que a medicação não lhe fez o efeito esperado. E as cenas protagonizadas pelo casal são, sem sombra de dúvida, o ponto alto do filme – o que, considerando sua qualidade técnica impecável, é um mérito absurdamente grande, preciso dizer: cenas como aquelas no qual Nathan sente medo de, durante a noite, tocar o braço do amado e encontrá-lo sem vida. Há ainda um outro momento no qual, visitando-o no hospital, Nathan toca as partes íntimas de Sean na tentativa de dar-lhe algum último prazer; e se esta cena em especial poderia acabar tomando um ar excessivamente erótico ou promíscuo por sua natureza, isto nunca acontece devido à sensibilidade do diretor e dos dois atores.

Mas, como se não fosse o bastante, a decupagem de Campillo somada à brilhante fotografia de Jeanne Lapoirie conduzem uma estética sensacional. E preciso destacar momentos como um plano em específico no qual vemos os membros da Act Up deitados, indefesos, apenas com seus cartazes, em mais uma tentativa de intervenção política. E o que falar de um pequeno rack focus empregado entre uma cena envolvendo uma festa, que se transforma, aos poucos, durante um lindo raccord, em uma célula humana sendo atacada pelo vírus HIV – uma ilustração perfeita dos contrastes sentidos por aqueles que, apesar de suas dificuldades, vivem intensamente, sim, seus momentos de alegria.

120 Batimentos por Segundo é necessário. É brilhante. Mas dói.

Ficha técnica:

120 battements par minute / 2017 / França / 143min

Direção: Robin Campillo
Roteiro: Robin Campillo, Philippe Mangeot
Elenco: Nahuel Pérez Biscayart, Arnaud Valois, Adèle Haenel, Antoine Heinartz, Ariel Borenstein, Félix Maritaud, Aloïse Sauvage, Simon Bourgade, Médhi Touré
Design de produção: Emmanuelle Duplay
Fotografia: Jeanne Lapoirie
Montagem: Robin Campillo, Stephanie Leger, Anita Roth
Trilha sonora: Arnaud Rebotini
Produção: Hugues Charbonneau, Marie-Ange Luciani
Distribuidora: Imovision

Trailer / Ver no IMDb

Crítica de Cinema desde 2017, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, fotógrafa e integrante do Coletivo Elviras de Críticas de Cinema.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*