Crítica | Me Chame Pelo Seu Nome

Assim como o amor, o filme do italiano Luca Guadagnino é doce – e doce não apenas por justamente retratar o amor, mas pela maneira leve, delicada e humana com que o faz. Despretensioso, o roteiro de James Ivory, que se baseia no romance homônimo de André Aciman, não faz mais do que nos guiar pelo romance vivido por Elio (Chalamet) e Oliver (Hammer) – e seu mérito principal se encontra justamente em sua simplicidade.

E a doçura, obviamente, está não apenas na belíssima história de amor vivida pela dupla, mas pela atmosfera cativante criada por Guadagnino, claramente com a ajuda da belíssima fotografia assinada por Sayombhu Mukdeeprom e do design de produção de Samuel Deshors, que nos leva a um ambiente familiar caloroso em sua essência já que a casa ao norte da Itália onde vive a família de Elio transborda amor: é impossível deixar de notar que todos sempre fazem juntos as refeições, frequentemente no exterior da residência, sob a luz do sol ou da lua; é também tocante a intimidade que o garoto possui com os pais, a ponto de, aos dezessete anos, permanecer deitado no colo dos dois enquanto a mãe lê uma história – e voltarei adiante a este ponto primordial. Mas, mais que isso, a narrativa ainda evoca a simplicidade de uma pequena cidade onde ouvimos quase que o tempo todo o som dos animais, a paz e a tranquilidade típicos do interior e a fraternidade dos que ali vivem, algo que é retratado de forma muito sublime em uma pequena sequência na qual o casal, de bicicleta, faz uma parada para pedir um copo d´água a uma senhora.

Mas é impossível continuar qualquer discussão acerca de Me Chame Pelo Seu Nome sem mergulhar justamente na bela relação vivida por Elio e Oliver; e, aqui, me vejo na necessidade de destacar o fato de que a narrativa cria, pura e simplesmente, uma obra que nos dá a honra de, durante seus 132 minutos de duração, viver um pouco desta bela história de amor – simplesmente porque uma relação entre dois homens não é diferente de qualquer outra. Há um pequeno diálogo entre Elio e seu pai, ao fim do terceiro ato, onde este explicita que entende, respeita e até mesmo admira o que o filho viveu com Oliver.

E como é bela a forma criada por Guadagnino na construção deste romance já que, em primeiro lugar, se destacam as atuações da dupla Chalamet e Hammer na pele de, respectivamente, Elio e Oliver ao construírem de forma tão multifacetada suas personalidades: o primeiro, introspectivo, expressa muitas vezes através da música aquilo que as palavras talvez não sejam capazes de externar; o segundo, extrovertido e cativante, exala um carisma tão grande que faz total sentido que ambos se completem e se encaixem. Mas, obviamente, se a doçura da própria narrativa não criasse o ambiente perfeito para as brilhantes atuações da dupla, isto não seria possível. E, mais uma vez, as sutilezas se fazem presentes em olhares, toques, e em todo o conjunto da mise-en-scène mas, sem sombra de dúvida, a grande estrela que brilha absoluta nesta obra é Timothée Chalamet, que constrói seu Elio com ímpar maestria ao retratar não apenas sua melancolia e introspecção – embora sua essência seja totalmente completa de amor e calor –, mas a descoberta da própria sexualidade e da capacidade de amar. E o ápice de sua performance é, com certeza, o plano final do filme – sobre o qual, obviamente, não revelarei detalhes.

E a construção da própria relação se dá aos poucos, em meio a toda esta atmosfera onde se podem destacar situações como aquela em que Oliver toca delicadamente os lábios de Elio, para desistir da investida logo em seguida, provavelmente por medo – e a cumplicidade existente entre ambos é tamanha que, mesmo após tal conflito, os dois continuam confortáveis na presença um do outro. Ainda, planos como aquele em que seus pés se tocam lentamente no escuro ou uma outra sequência na qual Oliver massageia os pés de Elio em um corredor são de extrema afetuosidade.

Mas é também em seu encantador design de produção que o longa mostra sua genialidade, e se faz impossível discutir o trabalho de Deshors sem fazer o necessário destaque para a linda sequência na qual o casal faz uma viagem e, ao entrar no ônibus, percebemos que Oliver traja roupas azuis que combinam com a cor do próprio veículo e, segundos depois, um corte sutil nos revela Elio que, emblematicamente, também se encontra usando a cor azul – algo que ilustra de forma magistral aquilo que a narrativa já deixara óbvio: a sintonia entre os dois e a situação que viviam.

E a música, tão importante na vida de Elio, também constrói os sentimentos necessários a diversos momentos de seu arco dramático: normalmente calma e alegre, faz com que tenhamos ainda mais profundidade neste mergulho narrativo; por outro lado, nos raros momentos onde o protagonista sente incômodo, a trilha assume um caráter muito mais ritmado e com notas dissonantes, numa composição adequada e condizente, sempre de forma orgânica.

É uma pena que, assim como doces, amores podem acabar. E isto não significa, jamais, que o doce uma vez saboreado não deva ser lembrado com carinho – e que não possamos desejar a futura felicidade de quem outrora amamos.

Ficha técnica:

Call Me By Your Name / 2017 / Itália, França, Brasil, Estados Unidos / 132min

Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: James Ivory (baseado no romance de André Aciman)
Elenco: Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois, Vanda Capriolo, Antonio Rimoldi
Design de produção: Samuel Deshors
Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom
Montagem: Walter Fasano
Trilha sonora: Robin Urdang
Produção: Emilie Georges, Luca Guadagnino, James Ivory, Marco Morabito, Howard Rosenman, Peter Spears, Rodrigo Teixeira
Distribuidora: Sony Pictures

Trailer / Ver no IMDb

Crítica de Cinema desde 2017, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, fotógrafa e integrante do Coletivo Elviras de Críticas de Cinema.

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