Crítica | O Destino de uma Nação

Depois da febre pelo cantor canadense Justin Bieber, a moda da vez é aparentemente o ex primeiro-ministro britânico Winston Churchill; só recentemente, três atores interpretaram o político, incluindo John Lithgow na série The Crown, original da Netflix, Brian Cox no fraco Churchill e, agora, Gary Oldman neste O Destino de Uma Nação, dirigido por Joe Wright e roteirizado por Anthony McCarten.

E chega a ser emblemático o fato do longa se iniciar com imagens de arquivo da época, já que os pouquíssimos diálogos interessantes ou memoráveis que aparecem durante suas mais de duas horas de projeção, curiosamente, são justamente recriações literais de discursos proferidos pelo inglês, incluindo aquele que é provavelmente o mais famoso deles, o da Operação Dínamo (sim, aquele do “lutaremos nas praias, lutaremos sei lá aonde” e, sim, é exatamente o mesmo discurso que você provavelmente já ouviu em Dunkirk).

E, sim, a atuação de Gary Oldman é, de fato, sensacional: entre os atores mencionados no primeiro parágrafo, Oldman com certeza constrói seu Churchill de forma fenomenal como o sujeito curvado, carrancudo e reclamão que era, embora obviamente se trate exatamente do tipo mais caricato de performance caça-estatueta, especialmente considerando seu ganho de peso e alterações físicas para o papel. Aqui, inclusive, contribui o roteiro de McCarten que explora as fraquezas do inglês: não somente seus momentos de triunfo ou as várias ocasiões em que este maltratava seus funcionários diretos, como a secretária Elizabeth Layton (James), mas situações em que se mostrava vulnerável, especialmente em relação à sua dificuldade com as palavras e a construção de seus discursos, algo do qual dependia justamente de Layton, mas também em relação a sua saúde já deteriorada em certos pontos – razão pela qual em diversas situações se encontrava acamado.

O longa ainda consegue tempo para pequenos alívios cômicos aqui e ali (que, convenhamos, acabam por torná-lo ligeiramente mais palatável) como a sequência envolvendo um pequeno gesto e a reação de suas funcionárias tentando explicar a conotação deste em áreas suburbanas da Londres da década de 1940 ou uma outra pequena cena específica, particularmente hilária, na qual o primeiro ministro gasta algum tempo tentando encontrar adjetivos para descrever Adolf Hitler para, logo em seguida, reduzi-lo a um “pintor de paredes” numa referência óbvia ao fato deste ter sido um artista plástico frustrado.

Do ponto de vista estético, o design de produção de Sarah Greenwood se mostra impecável na reconstrução histórica do período da Segunda Guerra Mundial, incluindo a Câmara dos Comuns e seu interior, mas também a arquitetura da época de forma geral. E, neste sentido, também a direção de fotografia assinada por Bruno Delbonnel cria jogos de luzes e sombra que servem para, organicamente, diminuir ou engrandecer seus personagens: é possível apontar como exemplo o frequente uso de luzes vindas de ângulos superiores e retos que, ao criarem sombras no rosto de Gary Oldman, são capazes de, ao esconder seus olhos, o tornarem ainda mais ameaçador. Ainda, o mesmo jogo de luzes e sombras termina por criar uma aura de mistério em torno de personagens específicos, exatamente como ocorre na primeira vez que somos apresentados ao Rei George VI (Mendelsohn). Há de se destacar, também, a cena do discurso feito por Churchill nas rádios, no qual o uso da luz vermelha simboliza, diegeticamente, não apenas o perigo da guerra em si, mas também a própria sensação de pânico sentida pelo protagonista na iminência da hora marcada para entrar ao vivo.

No fim das contas, O Destino de uma Nação ainda deixa lacunas: em momento algum conseguimos compreender totalmente a mente de seu personagem principal e sequer compreender o quanto sua busca por apoio popular tinha a ver com seu próprio desejo de vingança na guerra.

Ficha técnica:

Darkest Hour / 2017 / Reino Unido, Estados Unidos / 125min

Direção: Joe Wright
Roteiro: Anthony McCarten
Elenco: Gary Oldman, Kristin Scott Thomas, Ben Mendelsohn, Lily James, Ronald Pickup, Stephen Dillane, Nicholas Jones, Samuel West, David Schofield
Design de produção: Sarah Greenwood
Fotografia: Bruno Delbonnel
Montagem: Valerio Bonelli
Trilha sonora: Dario Marianelli
Produção: Tim Bevan, Lisa Bruce, Eric Fellner, Anthony McCarten, Douglas Urbanski
Distribuidora: Universal Pictures

Trailer / Ver no IMDb

Crítica de Cinema desde 2017, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, fotógrafa e integrante do Coletivo Elviras de Críticas de Cinema.

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