Crítica | Três Anúncios Para Um Crime

O fato de um título como Três Anúncios Para Um Crime não apenas ter sido indicado à categoria de Melhor Filme do Oscar – além de ter rendido, também, indicações para Frances McDormand por Melhor Atriz, entre outras – é algo emblemático, para se dizer o mínimo: em 2017, diversas figuras de alto escalão de Hollywood foram acusadas de abuso sexual, especialmente depois do caso Harvey Weinstein. Conhecendo o modus operandi da Academia, é praticamente impossível que o longa de Martin McDonagh não leve uma destas duas estatuetas, ou até mesmo ambas. E, apesar de defender a qualidade técnica impecável da obra, acredito que sua possível vitória será muito mais ideológica do que técnica – como tudo que vem da Academia, diga-se de passagem.

Afinal, Três Anúncios Para Um Crime, roteiro original do próprio McDonagh, é, afinal de contas, uma história sobre justiça – mais especificamente sobre uma mãe que busca algum tipo de conforto, custe o que custar, em relação ao ocorrido com sua filha que, sete meses antes, fora estuprada e morta. O método para tal? Como bem sugere o título original em inglês, Mildred (McDormand) decide alugar três outdoors existentes à beira da estrada que leva à pequena cidade de Ebbing, vagos desde 1986, para criar uma “pequena” provocação direcionada ao Chefe Willoughby (Harrelson), da polícia local, o responsável pelo caso.

E embora o filme seja tecnicamente impecável, sua motriz acaba por ser, de fato, a atuação de Frances McDormand já que a atriz, claramente apoiada por um roteiro primoroso, constrói sua Mildred de tal forma a conferir-lhe um grau absurdo de complexidade e humanidade – se faz impossível deixar de notar, por exemplo, pequenos elementos visuais, dramáticos e narrativos que, combinados, nos fazem entender um pouco mais da personalidade daquela, até então, misteriosa mulher: embora sua natureza seja vingativa em relação ao fim trágico sofrido pela filha (algo muito provavelmente ligado à culpa que sente, o que a narrativa deixa bastante claro com o uso de um flashback), é também óbvio que Mildred não possui uma essência má, algo que a decupagem de McDonagh deixa bastante claro em momentos como aqueles em que ela se dá ao trabalho de desvirar um pequeno inseto na janela do escritório de Red (Jones) simplesmente porque a pequena criatura não consegue se movimentar; neste mesmo sentido, apesar de mover mundos e fundos em sua vingança pessoal contra Willoughby, é importante também perceber que a mulher se mostra capaz da empatia quando nota que a tosse do chefe, relacionada a seu câncer, não cessa. Enquanto isso, Mildred é também capaz de cometer atos de violência contra todos aqueles que se põe no caminho de seus outdoors, a exemplo do, em suas próprias palavras, “dentista gordo”.

E é excepcional a lógica visual criada pelo diretor de fotografia, Ben Davis, juntamente com o design de produção assinado por Inbal Weinberg: o maior exemplo que pode ilustrar esta afirmação é o fato da cor vermelha estar constantemente associada a Mildred; e se o vermelho é a cor do perigo, é também a cor da intensidade, do amor pulsante e, por que não, da vingança – e é notável como se faz presente em boa parte das situações vividas pela protagonista já que os próprios três outdoors encomendados por ela, as flores que planta à beira da estrada e até mesmo o aparelho telefônico que Dixon (Rockwell) usa para se comunicar com a mulher são justamente desta cor – e um pequeno detalhe em relação aos primeiros minutos da projeção é justamente o fato de que o vermelho, vindo dos outdoors, reflete vívido no rosto do policial.

Mas, mais do que isso, Três Anúncios Para Um Crime é ainda um filme sobre relações humanas e suas inatas complexidades: sem cair no erro de demonizar a figura do Chefe Willoughby e transformá-lo de forma maniqueísta em um vilão, o roteiro, ao invés disso, trata seus personagens exatamente pelo que são – pessoas, com seus lados tanto humanos quanto podres. Se a própria Mildred não pode ser considerada o melhor exemplo moral do mundo, mesmo não tendo uma essência má, o mesmo acontece com o chefe que, em meio a todos os conflitos, ainda luta com um câncer e tenta viver uma última noite de amor e companheirismo ao lado da esposa e filhos antes que tudo se torne insuportável demais.

Todavia, é o personagem vivido por Sam RockwellDixon, que passa pelo arco de transformação mais impressionante: em seu dilema por ser um bom profissional e em sua batalha interna acerca do que é ou não certo, sua redenção se encontra justamente quando consegue acreditar, mesmo que por algum momento, que possa aliviar e confortar a dor sentida por Mildred – e, mesmo que talvez não da forma que imaginava, ao longo dos 115 minutos de projeção de Três Anúncios Para um Crime, Dixon acaba por ser o único personagem capaz de arrancar um sorriso genuíno da protagonista.

Enquanto isso, o longa ainda gasta, acertadamente, alguns pequenos momentos para criar um certo grau de humor que serve não apenas como alívio em relação à sua temática pesada mas também como uma maneira de entendermos melhor a personalidade de Mildred: é possível exemplificar com situações como aquela em que a protagonista, ainda com a face anestesiada, nega ter ido ao dentista ou simplesmente afirma para um animal à beira da estrada que não pode lhe dar nada para comer porque “só tem Doritos e eles são pontiagudos”.

Mas o momento mais simbólico de toda a obra é aquele em especial no qual Mildred tenta, sozinha, apagar o fogo que consome seus três outdoors, pagos com tanto suor, mesmo quando nem lhes possuem mais serventia. E simbólico não apenas dentro da diegese, mas acerca de todos os acontecimentos recentes que provavelmente lhe renderão um Oscar.

Ficha técnica:

Three Billboards Outside Ebbing, Missouri / 2017 / Reino Unido, Estados Unidos / 115min

Direção: Martin McDonagh
Roteiro: Martin McDonagh
Elenco: Frances McDormand, Caleb Landry Jones, Kerry Condon, Sam Rockwell, Alejandro Barrios, Jason Redford, Darrell Britt-Gibson, Woody Harrelson, Abbie Cornish, Riya May Atwood, Lucas Hedges
Design de produção: Inbal Weinberg
Fotografia: Ben Davis
Montagem: Jon Gregory
Trilha sonora: Carter Burwell
Produção: Graham Broadbent, Peter Czernin
Distribuição: Fox Film

Trailer / Ver no IMDb

Crítica de Cinema desde 2017, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, fotógrafa e integrante do Coletivo Elviras de Críticas de Cinema.

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