Crítica | Trama Fantasma

Trama Fantasma, o novo trabalho de Paul Thomas Anderson, se estabelece como um brilhante estudo de personagens – e, neste caso, a parte mais interessante deste estudo é justamente que, depois de quase duas horas de projeção, pensamos já ter conhecido o suficiente a respeito do casal protagonista, o estilista Reynolds Woodcock (Day-Lewis) e a ex-garçonete Alma (Krieps), e sua dinâmica para, nos minutos finais, sermos surpreendidos por um plot twist capaz de alterar completamente toda a percepção tida até aquele momento.

E, se escolhas narrativas como esta costumam ser complexas, o roteiro de Anderson acerta de forma precisa ao construir uma reviravolta que não apenas faz total sentido como nos presenteia com a oportunidade de rever a obra, desta vez já cientes da verdadeira realidade daquele casal, agora sendo capazes de captar muitas outras sutilezas e uma trama que, desde seu princípio já nos entrega pequenas pistas narrativas, aqui e ali, que indicam qual poderia ser o desfecho – algo que abordarei um pouco mais adiante e, neste ponto do texto, já aviso o leitor de que, devido à complexidade da obra, será impossível seguir adiante sem revelar alguns de seus segredos e que, portanto, recomendo de fato a leitura apenas para os que já tiveram a oportunidade de conferi-la.

Primeiramente, a narrativa, acompanhada das brilhantes atuações de Daniel Day-Lewis e de Vicky Krieps, estabelece parte da natureza daqueles dois: embora os traços que podemos observar não sejam exatamente falsos, estes também estão longe de serem a totalidade daqueles dois personagens – algo que, como salientei, só conheceremos completamente ao fim do terceiro ato: sendo assim, em seus momentos iniciais, Trama Fantasma nos apresenta a Reynolds Woodcock como um homem metódico que, milimetricamente, apara os pelos das orelhas e nariz; que jamais ou raramente levanta seu tom de voz e que, apenas com um olhar, consegue que todos aqueles à sua volta façam exatamente o que o deseja: algo que ocorre muito mais pelo medo que sentem de seu temperamento do que por uma real autoridade que possui. Ao mesmo tempo, Alma, vivida com brilhantismo por Vicky Krieps, demonstra uma fragilidade e dependência que podem ser observadas não apenas por seus atos, mas até mesmo por seu frequente olhar que exibe uma tristeza que parece vir diretamente das profundezas de sua alma ou por um outro, de encantamento, quando Reynolds lhe dá qualquer tipo de atenção – mesmo que sejam apenas migalhas.

Acerca desta questão, o roteiro constrói aos poucos a dinâmica do relacionamento vivido pelos dois e, apoiados pela mise-en-scène, vamos aos poucos emergindo em sua complexa convivência: chega a ser emblemático que, em um momento específico, vejamos Reynolds sentado à mesa de um restaurante ao lado da irmã, Cyril (Manville), que se encontra muito mais próxima do irmão do que a própria namorada, ao passo que o homem simplesmente informa a esta que lhe pediu um steak tartare, sem que ao menos fosse consultada sobre qual seria sua escolha; mas a passividade de Alma diante daquele homem fica ainda mais clara quando este simplesmente lhe proíbe de entrar em seu escritório, não permite que faça qualquer tipo de barulho à mesa ou a humilha quando a moça resolve levar-lhe chá, ou ainda quando a trata com desdém quando tenta fazer um jantar surpresa – e as razões para aceitar viver uma relação desta natureza, onde é frequentemente humilhada, talvez fiquem mais claras quando lembramos de um diálogo em especial no qual Alma deixa bastante claro que “nunca gostou dela mesma”. Ao mesmo tempo, Reynolds se mostra cada vez mais uma criatura vil e mesquinha que trata todos à sua volta como objetos descartáveis ou peões de um tabuleiro, a ponto de obrigar a namorada a retirar o vestido do corpo de uma então cliente simplesmente porque esta bebeu demais e, portanto, “não merece” vestir sua criação – e, aqui, a fotografia, assinada pelo próprio Paul Thomas Anderson, sutilmente chega a criar sombras no rosto de Daniel Day-Lewis que servem para esconder seus olhos e aumentar ainda mais sua aparência ameaçadora.

Mas, mais que isso, Anderson acerta ao criar algumas pequenas lacunas narrativas que só tornam Trama Fantasma ainda mais rico: embora muito provavelmente pessoas diferentes poderão ter opiniões divergentes sobre algumas questões, o roteiro nunca deixa bastante claro, por exemplo, se Cyril estava ciente do tipo de relação que o irmão e a cunhada viviam; simultaneamente, embora fique evidente que Alma também foi responsável pela primeira vez que Reynolds ficou doente, já que a vemos claramente pesquisando sobre os tais cogumelos – embora, no momento, acreditemos que ela tenha desistido do plano ou simplesmente não o levado adiante –, o roteiro dá a entender que é justamente ali que se iniciou a relação de abuso duplo vivida pelo casal já que, após este acontecimento, vemos, pela primeira vez, Reynolds declarar seu amor por Alma e pedi-la em casamento – o que nunca fica claro, neste sentido, é como o ciclo de abuso simbiótico se deu início. Tais lacunas, e a discussão que podem gerar, com certeza farão com que a obra seja objeto de debates durante anos.

E é tudo isto que faz com que o novo trabalho de Paul Thomas Anderson seja uma reflexão excelente, não apenas sobre pontos de vista – e como situações podem parecer aquilo que não são e também sobre como nunca temos uma visão completa sobre quase nada – mas também sobre as próprias relações humanas e sua natureza, muitas vezes, egoísta e doentia.

Ficha técnica:

Phantom Thread / 2017 / Estados Unidos, Reino Unido / 130min

Direção: Paul Thomas Anderson
Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Vicky Krieps, Daniel Day-Lewis, Lesley Manville, Sue Clark, Joan Brown, Harriet Leitch, Dinah Nicholson, Julie Duck, Maryanne Frost, Elli Banks
Design de produção: Mark Tildesley
Fotografia: Paul Thomas Anderson
Montagem: Dylan Tichenor
Trilha sonora: Jonny Greenwood
Produção: Paul Thomas Anderson, Megan Ellison, Daniel Lupi, JoAnne Sellar
Distribuição: Universal Pictures

Trailer / Ver no IMDb

Crítica de Cinema desde 2017, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, fotógrafa e integrante do Coletivo Elviras de Críticas de Cinema.

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*