Crítica | Operação Red Sparrow

Em primeiro lugar, Operação Red Sparrow é um filme tão ruim, mas tão ruim, que enumerar seus problemas em uma ordem que faça algum sentido chega a ser desafiador; em segundo, fica óbvio que se torna cada vez mais necessário que alguém dê um forte abraço em Jennifer Lawrence pelo simples fato de que alguém que foi capaz de aceitar um papel tão deplorável precisa urgentemente de amigos.

Dominika Egorova (Lawrence) é uma ex-bailarina do Bolshoi russo que, após uma fratura na perna, é “convidada” por seu “adorável” tio Vanya (Schoenaerts) a servir como isca do governo para que possam descobrir mais acerca de um agente. Após ser estuprada, o agente é morto e, tendo se tornado testemunha ocular de um assassinato, a garota se vê diante de duas opções oferecidas pelo tio: morrer ou virar uma sparrow – uma espécie de agente “especial” do governo russo.

E o que se segue a partir daí são mais de duas horas de deleite para qualquer misógino que sinta prazer em assistir uma mulher sendo estuprada, tendo suas roupas arrancadas à força, golpeada de todas as formas possíveis – sejam estas físicas ou psicológicas – e à beira de seu limite emocional. E, neste sentido, o roteiro de Justin Haythe (que baseia-se no romance homônimo de Jason Matthews– o qual não li) é tão problemático que temos a impressão, o tempo todo, de que tais situações não existem à serviço da narrativa mas que, muito ao contrário disso, a própria narrativa existe única e exclusivamente para justificá-las e criar um show de horrores.

Mas, como se não fosse o suficiente, Operação Red Sparrow ainda se trata de uma obra ambientada nos dias atuais mas que, por alguma razão, continua aplicando uma lógica política muito próxima daquela vivida pelos EUA e URSS durante a Guerra Fria. Desta maneira, não seria surpreendente se, em algum momento, qualquer um dos personagens americanos se referisse ao país de Putin como “União Soviética” ou demonstrasse algum interesse em perseguir “comunistas”. Assim, é de forma caricata que o longa de Francis Lawrence retrata todo um país – e não apenas por atribuir-lhe todo o abuso humano doentio, mas também pela patética investida de colocar atores norte-americanos e ingleses em papéis de personagens russos, que simplesmente falam em inglês com um sotaque horroroso que faria qualquer russo bilíngue espumar de ódio.

Sim, sotaque. Em diversos momentos é impossível não termos a impressão de estarmos assistindo uma novela da autora Glória Perez, onde marroquinos, turcos ou indianos falam português com algum sotaque falsificado que os produtores de folhetins julguem corresponder ao país onde este se ambienta. Ridiculamente, é apenas depois de 1h37min de projeção que, por alguma razão, um dos personagens efetivamente fala em russo – novamente, sem nenhuma explicação já que, até então, todos os personagens naturais da Rússia se comunicavam entre si apenas em inglês.

Vergonhoso de todas as formas possíveis, chega a ser impressionante que qualquer estúdio tenha se dignado a investir dinheiro em uma produção tão patética, preconceituosa, misógina e deplorável como Operação Red Sparrow mas, principalmente, que qualquer mulher tenha se prestado ao papel absurdo de participar desta produção.

Ficha técnica:

Red Sparrow / 2018 / Estados Unidos / 140min

Direção: Francis Lawrence
Roteiro: Justin Haythe (baseado no romance de Jason Matthews)
Elenco: Jennifer Lawrence, Joel Edgerton, Matthias Schoenaerts, Charlotte Rampling, Mary-Louise Parker, Clarán Hinds, Joely Richardson, Bill Camp, Jeremy Irons, Thekla Reuten
Design de produção: Maria Djurkovic
Fotografia: Jo Willems
Montagem: Alan Edward Bell
Trilha sonora: James Newton Howard
Produção: Peter Chernin, David Ready, Jenno Topping, Steven Zaillian
Distribuição: Fox Film

Trailer / Ver no IMDb

Crítica de Cinema desde 2017, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, fotógrafa e integrante do Coletivo Elviras de Críticas de Cinema.

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