Crítica | Projeto Flórida

Após a cerimônia de premiação do Oscar, a estatueta por Melhor Atriz de Frances McDormand por Três Anúncios Para Um Crime foi roubada; sem desmerecer sua vitória em uma performance magistral, acredito que o culpado pelo furto tenha sido alguém que, assim como eu, gostaria de entregar o prêmio àquela que deveria ter sido sua dona: Brooklynn Prince, no alto de seus oito anos de idade.

Mas, não, o brilhantismo deste Projeto Flórida passa longe de ser apenas a atuação de Brooklynn: seu roteiro minimalista, real e humano somado à direção primorosa de Sean Baker e aos cuidadosos design de produção e fotografia, assinados respectivamente por Stephonik Youth e Alexis Zabe, criam um universo onde, apesar da dificuldade vivida pelos moradores dos projects (nomenclatura comum dada a pequenos prédios normalmente habitados por população carente nos Estados Unidos), existe a doçura e a inocência inerentes à infância.

Sendo assim, acompanhamos o dia-a-dia da pequena Moonee (Prince) que vive justamente em uma destas habitações com a mãe, Halley (Vinaite), uma jovem que, na tentativa desesperada de prover o melhor à sua filha, acaba por tomar atitudes desesperadas, erráticas e, muitas vezes, até mesmo de moral duvidosa. E se Halley chega ao ponto de vender perfumes falsificados, furtar, invadir hotéis e, num momento extremo, até mesmo a se prostituir, é até impossível, em qualquer momento que seja, questionar sua capacidade como mãe ou sua devoção por Moonee – a verdade é que Halley raramente toma qualquer tipo de atitude por si própria, mas única e exclusivamente pelo bem estar da garotinha já que, até mesmo quando se mostra capaz do furto, usa o dinheiro para agradar e mimar a pequena, andando ela própria muitas vezes desajeitada e com os cabelos azuis desbotados e desgrenhados.

E, sobre as cores, é exatamente neste aspecto que o design de produção nos presenteia com um universo lúdico e colorido onde, desde as paredes do prédio até às roupas vestidas pelas crianças são sempre cheias de cor e alegria – o que cria justamente o questionamento acerca daquele universo ser, de fato, tão vívido ou esta ser apenas a visão açucarada de mundo que passa pelo filtro da inocência e doçura infantis.

Afinal, é no meio deste universo pobre, sofrido e cheio de agruras que Moonee vive suas mais incríveis aventuras ao lado dos amigos Scooty (Rivera) e Jancey (Cotto): e é justamente o trio que protagoniza os momentos mais doces e sensíveis do longa, onde frases cheias de uma leve inocência como “a única coisa que não gosto na laranja é a tampa” e “o médico diz que a gente tem asma e precisa de sorvete” são ditas, enquanto, sem um pingo de egoísmo ou qualquer sentimento ruim, Moonee e Scooty dividem um mesmo sorvete sem a menor cerimônia, passando de boca em boca.

Mas, em paralelo, Halley luta para conseguir pagar, semana a semana, seu aluguel, sempre cobrado pelo gerente do local, Bobby (Dafoe) que, muito mais do que isso, exerce uma certo papel paterno aqui e ali quando, dia a após dia, tenta manter naquele local um mínimo de compostura ou impõe às crianças uma disciplina que talvez não tenham em suas casas. E, aqui, Dafoe compõe seu personagem com uma tridimensionalidade ímpar ao mesclar momentos de doçura, como aquele em que genuinamente sorri durante as brincadeiras dos pequenos, ou em outros, com uma dureza muitas vezes necessária na tentativa de impor a ordem aos inquilinos.

Mas, muito mais do que isso, Projeto Flórida ainda cumpre um importantíssimo papel de desconstrução do glamour normalmente associado ao estado da Flórida e à cidade de Orlando, onde se passa a narrativa: nem tudo são flores e parques da Disney – embora estes se encontrem geograficamente muito próximos, a ponto de que, em dado momento, Halley leva a filha e a melhor amiga, Jancey, aniversariante, para que possa observar o show fogos de artifício dos parques temáticos, mesmo que de longe. Sim, a pobreza existe, lado a lado com um dos maiores ícones do capitalismo. Neste sentido, aliás, chega a ser emblemático que os únicos personagens a fazerem críticas e reclamar das condições de hospedagem daquele local no “coração” da américa do norte e do sonho americano sejam justamente latinos – mais especificamente uma brasileira e seu marido, o que acaba por servir como um tapa na cara do viralatismo tipicamente brasileiro.

Mas é em apenas uma fala de Moonee que se resume a essência do delicado, doce e brilhante trabalho do cineasta Sean Baker: em dado momento, nas redondezas de onde moram, a garotinha olha casualmente para Jancey e a questiona se sabe por que uma árvore em especial, que cresce em uma posição peculiar, é sua favorita por ali. A resposta? “Porque mesmo caída, ela continua crescendo”.

Ficha técnica:

The Florida Project / 2017 / Estados Unidos / 111min

Direção: Sean Baker
Roteiro: Sean Baker, Chris Bergoch
Elenco: Brooklynn Prince, Christopher Rivera, Aiden Malik, Josie Olivo, Valeria Cotto, Edward Pagan, Bria Vinaite, Patti Wiley, Jasineia Ramos, Willem Dafoe
Design de produção: Stephonik Youth
Fotografia: Alexis Zabe
Montagem: Sean Baker
Trilha sonora: Lorne Balfe
Produção: Sean Baker, Chris Bergoch, Kevin Chinoy, Andrew Duncan, Alex Saks, Francesca Silvestri, Shih-Ching Tsou
Distribuição: Diamond Filmes

Trailer / Ver no IMDb

Crítica de Cinema desde 2017, formada em Cinema Digital pelo Centro Europeu, fotógrafa e integrante do Coletivo Elviras de Críticas de Cinema.

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